quinta-feira, 26 de junho de 2014

Síntese dos Textos: Estados Unidos: da colônia à independência (Leandro Karnal), As independências na América Latina (Leon Pomer), A formação dos Estados Unidos (Nancy Naro), Revoluções na América Latina (Héctor Bruit), A Formação do Estado Populista na América Latina (Octavio Ianni).

Marcos dos Anjos Bezerra
Ana Cristina Bernardes Souza
Samila Sousa Catarino
Regina Pereira Almeida


              Durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos os estadistas não buscaram implantar uma nova ordem social. Não se visou realizar uma revolução que proporciona-se uma participação política dos “grupos de condição social inferior”. A união das treze colônias contra o domínio inglês foi estimulada por grupos privilegiados que visavam o controle local americano, e por consequência romper o pacto colonial com a metrópole inglesa.
            Com o fim da Guerra, os grupos das elites locais denominados nacionalistas, buscaram organizar o recém Estado em torno de um poder central. Havia a preocupação de se resolver os problemas em nível nacional e não em nível de cada Estado. Era preciso um governo forte que resolvesse a expansão para Oeste, bem como definisse uma nova política comercial com outros Estados.
            A proposta nacionalista obteve êxito e ficou estabelecido pela constituição de 1787 o surgimento de um sistema de partidos nacionais. Um dos primeiros a emergir foi o Partido Republicano idealizado por James Madison e Thomas Jefferson. Este partido apresentava como uma de suas metas a exploração e a expansão dos territórios do Oeste e que a colonização destes locais seria feita por pequenos e médios produtores. O partido atraiu seguidores que se estabeleceram ao longo da fronteira do Oeste. O republicanismo avançou na proposta de cidadania, no entanto, apresentava vestígios do elitismo anterior, pois de acordo com Jefferson quem deveria deter de fato o poder era aqueles que detinham a condição social superior, em outras palavras a população branca.
            Os sentimentos republicanos e capitalistas se uniram aos poderes do Estado para motivar a expansão do mercado. Dentro do recém-criado estado americano surgem duas formas divergentes de mercados: colônias do norte e colônias do sul. A sociedade do norte era pautada em governos onde “a soberania do povo era respeitada”, “reinava o princípio do igualitarismo”, o proprietário trabalhava em conjunto com sua família, o excesso da produção era destinado aos mercados locais e regionais. Já a sociedade do sul era pautada no sistema de plantation que dificultava o convívio social entre os colonos, a propriedade rural estava centrada nas mãos de poucos, foi onde predominou principalmente a mão-de-obra escrava.
Mesmo com os Estados Unidos divido em dois grandes blocos houve um empreendimento em sua expansão, tornou-se uma sociedade urbana e industrial. Chegou a expandir a comercialização dos seus produtos inclusive para a China, em razão da sistematização do comércio do tipo triangular.
 Os americanos também dominaram diversos territórios do Oeste, onde as populações nativas foram expulsas muitas vezes de forma violenta. Tinham-se ideias e sentimentos expansionistas. O sul e o norte se expandiam para Oeste, tendo aquele velho dilema da “questão livre” contra a “questão escrava”. A questão da expansão devia ser analisada sob os pontos de vista da escravidão ou da mão-de-obra livre. Conforme os Estados Unidos se expandiam, o problema se tornava cada vez mais frequente.
Os norte-americanos se julgavam os únicos responsáveis pelo domínio das regiões da América. Lançaram, por exemplo, a Doutrina Monroe, que proibia que nações estrangeiras interviessem nos territórios americanos, em outras palavras buscava legitimar o poderio dos Estados Unidos na América.
Um dos principais alvos da expansão norte-americana foi o México que declarou guerra aos Estados Unidos em 1846 devido às ameaças que tal governo provocava. A guerra perdurou até 1848; o México perdeu o confronto e teve que ceder aos rivais além de ricas minas de ouro na Califórnia, um vasto território que corresponde atualmente ao Texas, Califórnia, Nevada, Utah e partes do Arizona, Novo México, Colorado, etc.
Observa-se que a realidade norte-americana caracterizou-se por uma transformação do sistema capitalista rural e comercial para o urbano e industrial. A fartura de terras no Oeste possibilitou a expansão de dois sistemas antagônicos, de um lado o sistema de plantation e a sociedade escravocrata e de outro um sistema pautado na mecanização interna e em torno da mão-de-obra livre.
As divergências entre esses dois sistemas provocaram uma guerra civil dentro dos Estados Unidos. A partir de 1820 surge no Norte dos Estados Unidos uma visão de sociedade nova que valorizava a concorrência entre os indivíduos, com vistas à mobilidade social. Buscava-se um homem simples com o ideal da democracia. Tinha-se a meta do igualitarismo, do espírito individualista e a intolerância contra os monopólios, buscava se ter um cidadão que participasse de todos os níveis de governo, com exceção dos mais altos.
Estes pensamentos eram contrários aos defendidos pelas colônias do Sul que se fundamentava em torno da escravidão para a manutenção das instituições. Prevalecia o sistema da plantation, ou seja, vastas quantidades de terras cultivadas com monoculturas destinadas ao comércio externo.
O sul começou a desempenhar um papel de grande fornecedor de matéria-prima para a industrial têxtil do norte, no entanto, houve uma taxação sobre tais produtos e isso provocou um descontentamento, segundo os sulistas tais tarifas levaria ao progressivo empobrecimento do Sul. Tais embates poderia apenas ser resolvidos de uma única forma: a guerra.
Não existe um consenso quanto aos reais motivos do conflito, alguns autores citam a questão das tarifas, outros abordam a escravidão e outros levantam a questão da preservação nacional.
A guerra começou em 1861 depois da separação dos estados sulistas da União e da formação de uma Confederação dos Estados do Sul. Depois de quatro anos de lutas o sul reconhece sua derrota, terminando em 1865 uma guerra que provocou grande perda humana. Com seu término os sulistas estavam praticamente dilacerados.
Foi durante a guerra que ocorreu a redefinição do papel do negro. Lincoln no segundo ano do conflito declarou abolida a escravidão. A extensão da cidadania ao negro foi rápida, o escravo foi transformado em ser livre logo depois de terminado as hostilidades, mas, os direitos dos negros foram na prática ignorados pelos estados sulistas. Apesar de ser garantido ao negro o acesso à propriedade, recorrer à justiça, casar e ser educado pelo sistema público observa-se na prática algo completamente diferente, pois os negros foram obrigados a trabalharem e foram proibidos de escolherem livremente seu emprego. A liberdade eleitoral dos negros fora comprometida devido às manipulações das “máquinas eleitorais”. Surgiram conspirações contra os negros: Ku Klux Klan, que defendia a supremacia branca e reprimia os negros. O negro não era nem escravo nem um cidadão, era tido pela elite como um cidadão de segunda classe, apesar de ser levantado o propósito de que todos os homens são iguais.
Acabado a guerra se torna necessário organizar a produção, mas para isso é preciso pessoas para trabalhar, mas a quem recorrer? Pois a escravidão havia sido abolida. Recorre-se a mão-de-obra imigrante, pessoas especializadas para o trabalho nas minas, nas fábricas, nas indústrias, etc. Houve a industrialização dos Estados Unidos e com ela o aumento da população urbana e do crescimento das cidades. O sistema de produção se intensifica e eclode o Fordismo, que se caracteriza por uma massificação em série da produção, onde cada trabalhador é responsável por uma determinada tarefa. Com o aumento da produção os proletários passam a ser mais explorados e surgem os primeiros sindicatos que reivindicam melhores condições de serviços, melhores salários, menor jornada de trabalho e é claro menos exploração de sua mão-de-obra. No entanto, muitos são vítimas de repressão.
Apesar dos Estados Unidos ter passado por muitas transformações, o aspecto social não foi agraciado com eficácia pela “época de progresso”. Surgem para reformar tal realidade os movimentos progressistas, que visavam proporcionar uma política mais democrática, moralizar a vida social e torná-la mais igual. Buscava-se reformar uma sociedade corrupta que havia sido criada em razão dos interesses dos poderosos. Para tanto, empregaram como veículos para a divulgação de suas metas a imprensa, a literatura, as publicações oficiais do governo. Tal movimento permitiu ao homem um maior conhecimento de seus direitos políticos e sociais, promoveram o sufrágio para as mulheres, empreenderam medidas de    bem-estar e lutaram pelo direito a vida, à educação e à saúde.
Os primeiros passos para o alcance de uma cidadania partiram dos progressistas. Foram vários os conflitos entre a cidadania e o sistema capitalista. O Estado americano devido à política neoliberal tenta ao máximo se distanciar das questões básicas da sociedade, tais com a educação, à saúde. No entanto, em época de crise os governantes passam a intervir de forma direta no Estado. O exemplo claro se deu na época da Quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, onde Roosevelt forneceu projetos para a rápida recuperação do mercado interno através da interferência em todos os setores, inclusive na questão da cidadania.
Conclui-se que ainda hoje, apesar de uma consciência nacional que identifica a cidadania como a aquisição de plenos direitos civis, falta por parte do Estado à disseminação entre a população americana dos plenos benefícios do bem-estar social. Por mais que se tenha buscado difundi o ideal de cidadania é difícil na prática conciliar esse princípio com o sistema capitalista avançado americano, que proporcionou aos Estados Unidos à supremacia do domínio mundial depois da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais.

ESTADOS UNIDOS: DA COLÔNIA À INDEPENDÊNCIA


Marcos dos anjos Bezerra

            A história dos Estados Unidos da América da época colonial apresenta diversas dificuldades. Uma delas está no fato de não existir Estados Unidos-Colônia. Existiam colônias autônomas dentro da América do Norte. No entanto, muitos estudiosos acabam generalizando e conferindo uma unidade disfarçada para a América anglo-saxônica. É preciso rescindir aos programas tradicionais de explicação. Geralmente a versão tradicional elabora certas “verdades didáticas” sobre a colonização inglesa. Estas “verdades” separam as colônias em dois tipos: exploração e povoamento.
            Segundo essa visão as colônias do tipo exploração seriam as ibéricas, pois a meta central dos colonizadores era enriquecer a metrópole, logo se explica o atual estado de subdesenvolvimento de países como o Brasil, Peru, México, pois nesses países reinava a cobiça e desejo de ascensão social. Já as de desenvolvimento seriam as anglo-saxônicas, onde o objetivo dos aventureiros seria o povoamento da terra e por consequência o seu enriquecimento, portanto, se tem a explicação do desenvolvimento atual, por exemplo, dos Estados Unidos.
            Só recentemente com visões novas e mais fiéis aos documentos é que estas posições foram contrariadas. O escritor brasileiro Vianna Moog critica tais versões. Para ele é preciso abordar outros fatores para compreender o grau de desenvolvimento ou subdesenvolvimento de um local, tal como os fatores geográficos e culturais, a religião. Nas áreas da América do Norte o clima, o relevo, a hidrografia favorecia o trabalho do colonizador se equiparado às áreas coloniais de Portugal ou Espanha. Dentro da questão religiosa o ideal católico buscava a salvação da alma, o progresso era visto com desconfiança, o trabalho deveria ser evitado pela elite, devendo ficar a caráter dos seres inferiores. Já os protestantes pregavam o contrário: valorizavam o trabalho e a riqueza era bem vista, logo a circulação de produtos e pessoas eram mais intensos.
            Não é o simples reducionismo aos termos exploração e povoamento que propiciam respostas para as diferenças existentes dentro da América. É preciso entender a colonização inglesa e suas particularidades, para tanto é pertinente levar em conta a situação da Inglaterra antes de iniciar esta colonização.
            Ao final da Idade Média, a Inglaterra havia enfrentado a Guerra dos Cem Anos, a Guerra das Duas rosas. Estas guerras formou uma nacionalidade inglesa, uniu o país entorno de um objetivo e colaborou para enfraquecer a nobreza e suscitar na Inglaterra o desejo de um poder centralizado. A família Tudor foi a responsável pela afirmação do poder real na Inglaterra, bem como pelo questionamento a autoridade papal. Henrique VIII, Eduardo VI e Elizabeth ao enfrentarem a Igreja de Roma promoveu um crescente nacionalismo. O primeiro rompeu com o poderio da Igreja Romana na Inglaterra, fundou a religião Anglicana e tomou para si as terras e riquezas da Igreja Católica. A última promoveu a época de expansão inglesa.
            O século XVII na Inglaterra foi marcado pela intensificação do processo dos cercamentos e juntamente com eles houve o aumento do êxodo rural. As cidades aumentam e numero de pobres passa a ser enorme. Pobres, mulheres, órfãos, religiosos perseguidos formaram a maior parte do contingente de pessoas que emigraram para a América em busca de melhores condições. Nessa época os choques entre rei e burguesia, entre religião oficial e seitas colaborou para tornar o século XVII conturbado na Inglaterra. Essa situação da Inglaterra ajuda a compreender a ausência de um projeto colonial sistemático para a América. As pessoas que vieram para a América tiveram que construir muita coisa, inclusive uma memória.
             A primeira tentativa de colonização da América do Norte se deu no reinado de Elizabeth. A soberana concedeu aos nobres terras assegurando-lhes direitos. Tinha-se a preocupação em explorar o ouro e a prata. Não se tinha de fato a preocupação de investir na colonização de terras desconhecidas, a pirataria aos navios espanhóis repletos de ouro e prata era mais vantajosa. Somente no século XVII é que a Inglaterra irá reviver o impulso colonizador, mas tal empreita será entregue não mais a nobres individuais, mas sim as Companhias.
            Um dos setores mais difundidos dentro da colônia americana foi à educação. Tinha-se o ideal da interpretação individual da Bíblia, logo era necessário promover a difusão do conhecimento para a população. Houve o esforço em prol da educação formal. A generalização de escolas primárias e a preocupação de que todos aprendessem a ler e escrever estão muito presentes nas colônias ingleses que nas ibéricas. A educação era feita por membros da comunidade e paga pela comunidade. Surgiram várias universidades e uma das consequências foi à baixa do analfabetismo.
            Além da difusão do conhecimento outra característica central das Treze Colônias foi à importância dada ao trabalho. Enriquecer pelo trabalho é uma obrigação. O trabalho não seria um castigo, mas uma benção. O dinheiro adquirido pelo trabalho era um sinal de ser eleito por Deus.
            Apesar da importância dada ao trabalho pelos norte-americanos, a sua concretização não se deu de forma homogênea. Dois modelos se desenvolveram: um centrado no trabalho livre, com a economia pautada na mecanização interna; outro girava em torno do trabalho escravo, no sistema de plantation e voltado para o mercado externo.
            Os principais prejudicados pelo sistema colonial foram os índios e os escravos. Muitos autores falam de genocídio para caracterizar as populações indígenas que sofreram na América do Norte. Existe uma diferença entre o genocídio ibérico e anglo-saxão. Os ingleses não integraram o índio no seu universo. Os ibéricos pretenderam apesar de usarem a forma autoritária para tal objetivo. A escravidão foi intensa, principalmente nas colônias do sul devido à necessidade de tal mão-de-obra para a comercialização da monocultura. Tiveram locais que o número de escravos foi tão intenso que se tornou um pesadelo para o mundo branco. Houve resistência, sejam através de fugas, incêndios, insurreições, etc.
            A população dos Estados Unidos aumentou consideravelmente devido, sobretudo a imigração e ao próprio desenvolvimento natural da população das colônias. Os principais imigrantes foram os alemães, escoceses e irlandeses. Mas os franceses protestantes marcaram sua presença. A elite comercial vivia nas cidades, mas a maioria populacional das Treze Colônias era rural.
            E a vida cotidiana dessas populações muito se assemelhava ao modo europeu. A autoridade residia no pai e as mulheres trabalhavam dentro e fora de casa. As mulheres casavam-se geralmente aos 24 anos. Apesar disso não tinham uma identidade legal. Depois dos sete anos as crianças eram vestidas como pequenos adultos. Quase todos os homens andavam armados. As igrejas anglo-saxônicas só tinham o que fosse necessário.
            No século XVIII as guerras europeias e seus reflexos na América irão alterar a história das Treze Colônias. A Guerra dos Cem Anos, a Guerra do Rei Guilherme terminam mediante acordos entre os envolvidos (Inglaterra e França), mas tais acordos representaram somente os interesses ingleses, as necessidades dos colonos não foram levadas em conta. Os questionamentos a respeito do domínio inglês começam a aparecer.
            As tensões entre colonos e ingleses aumentaram em razão da política conservadora implantada pela Inglaterra: a presença militar na colônia custeada pelos colonos; a Lei do Açúcar visava destruir a tradição dos colonos em comprar melaço mediante o comércio triangular; Lei da Moeda proibia a emissão de crédito na colônia, buscava-se restringir a autonomia das colônias; a Lei do Selo estabelecia que todos os documentos da colônia deveriam ser taxados por selos da metrópole.
            Devido a todas as leis restritivas os norte-americanos se influenciam pelas ideias de John Locke. As ideias deste formaram um bojo que levaria a proclamação da Independência das Treze Colônias. Passaram a ser realizadas reuniões para discutir a situação no qual as Treze Colônias estavam envolvidas e a solução encontrada foi redigir a Declaração de Independência que ficou pronta em 4 de julho de 1776. Houve resistência por parte da Inglaterra, no entanto, os norte-americanos obtiveram o apoio de países rivais aos ingleses e em 1781 colonos e aliados obtém a vitória decisiva na Virgínia. A tradição política aponta como alguns dos responsáveis pela construção da recém-nação George Washington, Thomas Jefferson e Benjamim Franklin.  
            Com a independência criou-se uma constituição centrada na república federalista, pautada nos poderes executivo, legislativo e judiciário. George Washington é eleito o primeiro presidente. A escravidão se mantém e os norte-americanos se lançam no século XIX e XX na expansão de seus territórios.

            Conclui-se que a colonização anglo-saxônica não contou com a tutela do Estado. Não houve na Inglaterra moderna o monopólio católico onde o rei e Deus tinha a mesma fala. Calvinistas, católicos e anglicanos fizeram os ingleses conviver com a diversidade. O empreendimento da colonização foi feito por companhias comerciais. Houve a estimulação a alfabetização nas Treze Colônias. As colônias prosperaram de formas diferentes. O índio não foi assimilado, não houve projetos de catequização. Com a aprovação de leis autoritárias houve reação e confrontos entre colonos e ingleses aumentaram. A independência debilitou a Inglaterra, estimulou a Revolução Francesa. Assim os Estados Unidos demonstraram ser possível romper o Pacto Colonial e seu posterior desenvolvimento reforçou a ideia de que os EUA era o modelo a ser seguido pelo restante da América. 

REFERÊNCIA:

KARNAL, Leandro. Estados Unidos: da colônia à independência. São Paulo: Contexto, 1990.

Resenha: O Mundo de Sofia - Quatro capítulos finais do livro.


Marcos dos Anjos Bezerra

               O livro O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder nos proporciona um estudo da história da Filosofia, sendo, portanto, de fundamental importância para a busca de respostas aparentemente sem respostas e para uma reflexão acerca das ações do homem e do mundo que nos cerca. Aqui serão elencados os quatro últimos capítulos da obra: NOSSO PRÓPRIO TEMPO... O homem está condenado à liberdade, A FESTA NO JARDIM... Uma gralha branca, O CONTRAPONTO... Duas ou mais melodias soando ao mesmo tempo..., GRANDE EXPLOSÃO... Nós também somos poeira estelar.

             No capítulo NOSSO PRÓPRIO TEMPO... O homem está condenado à liberdade são enfatizadas as teorias filosóficas do século XX, focando o existencialismo do francês Jean- Paul Sartre. Para este, o ponto de partida para as coisas é exclusivamente o homem, pois é o único consciente de sua existência. Para Sartre o homem está condenado à liberdade e sendo responsável por tudo que faz não pode negar a responsabilidade pelos seus atos. É abordado o pensamento de Simone Beauvoir: a mulher precisa adquirir espaço próprio no mundo, liberta-se da submissão perante seu marido e deixar de ser somente o segundo sexo. Tem-se o teatro do absurdo como uma forma de reflexão da vida cotidiana por meio de situações inusitadas. É salientado a corrente ecofilosofia que defende que o homem tomou decisões equivocadas e que isso está afetando a natureza e colocando em risco a vida no planeta. Discute-se que o mundo está passando pela etapa da inovação tecnológica. E tem-se, no fim desse capítulo uma crítica ao excesso de publicações de livros sem conteúdo ao invés de supervalorização da verdadeira filosofia.

            No capítulo A FESTA NO JARDIM... Uma gralha branca traz-se manifestações políticas filosóficas pautadas não na violência, mas pela pacificidade. Chega-se a conclusão de que nenhuma pergunta deve ser estranha para o filósofo. Presencia-se um descaso a situações como o sexo, gravidez e ingestão de bebidas alcoólicas por jovens. Enfoca-se o conceito de realidade e fantasias criadas por alguém. Salienta-se a importância do desenvolvimento da opinião crítica em relação ao mundo em que se vive e também em relação aos valores de gerações passadas. Tem-se discussões acerca do ativismo como forma de mudanças de opiniões consolidadas pelo poder da Igreja e da Escola na mentalidade dos jovens. Aborda-se o comunismo, temática muito utilizada na época da Guerra Fria pelos capitalistas como sinônimo de tudo que deveria ser combatido. O comunista era tido como contrário à nação.

           No capítulo O CONTRAPONTO... Duas ou mais melodias soando ao mesmo tempo... É salientada a importância da análise das coisas nas entrelinhas, bem como a não existência de uma única interpretação do mundo. Discute-se que não existe uma verdade absoluta e, portanto, o filósofo nunca diz “nunca” para as coisas. Fala-se do Solstício de verão. Refletem-se noções de matéria e espírito, onde o espírito é mais sólido do que o gelo, daí ele atravessar a matéria sem dificuldades. Chega-se a conclusão de que a história da humanidade é extensa. E que não se deve chegar a conclusões de forma precipitadas, pois a filosofia é uma fonte de reflexão para a tomada de decisões pertinentes. Discutem-se noções de vida, morte e eternidade. A consequência inevitável da vida é morte.

               O último capítulo do livro intitula-se GRANDE EXPLOSÃO... Nós também somos poeira estelar e aborda o conhecimento científico sobre o surgimento do universo. Demonstra-se a imensidão do universo e que terra é o único planeta que tem vida em relação aos demais do sistema solar. Salienta-se que a observação do universo refere-se a um olhar para o passado e o agora do universo nunca saberemos como ele se encontra. Tudo que vemos chega através de ondas luminosas, daí percebermos primeiro o raio e depois o trovão. Discute-se que no universo a quinze bilhões de anos a matéria se encontrava em um espaço reduzido e que a sua gravidade e densidade eram elevadas tendo como consequência uma grande explosão ou Big Bang, que deu início ao surgimento das galáxias, das estrelas, das luas e dos planetas, estes se movimentam a velocidades impressionantes. Diz-se que o homem começou com o Big Bang, pois toda a matéria no universo é matéria orgânica. Tem-se, por fim, a ideia de que um filósofo nunca desiste perante as dificuldades da vida.

         Os capítulos lidos serviram para um aprofundamento acerca da política, da filosofia e do conhecimento científico. Os quatro capítulos apresentam uma leitura de fácil compreensão, ocasionando no leitor o desejo de sempre ler mais. Foi uma nova forma de escrita da história da filosofia. Em vez ficar na rotina de escrever sobre determinado filósofo o autor Jostein Gaarder inova ao trazer a filosofia numa visão ampla com o diálogo entre o um cunho literário representado pelas constantes conversas entre Sofia e Alberto e entre Hilde e o Major Albert Knag. É preciso que o leitor saiba diferenciar o lado filosófico do literário. Essa leitura traz as ideias e contribuições dos filósofos para o conhecimento e nos faz pensar criticamente para podermos encontrar respostas plausíveis sem precipitações. A filosofia é igual a uma criança por está sempre em busca de respostas, mesmo que muitas vezes seja um questionamento que superficialmente não apresenta fundamentação.

REFERÊNCIA:

GAARDER, Jostein. NOSSO PRÓPRIO TEMPO... O homem está condenado à liberdade, A FESTA NO JARDIM... Uma gralha branca, O CONTRAPONTO... Duas ou mais melodias soando ao mesmo tempo..., GRANDE EXPLOSÃO... Nós também somos poeira estelar. In: _____. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 476-547.

FORMAÇÃO HISTÓRICA DE OEIRAS E A IMPORTÂNCIA DO DIA 24 DE JANEIRO PARA A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL.


Marcos dos Anjos Bezerra

Oeiras surgiu entorno da criação de gado e durante muito tempo foi domínio da Casa da Torre da Bahia. A pecuária foi sendo deslocada para o interior do país devido às terras do litoral do Nordeste ter sido destinada ao plantio da cana-de-açúcar que na época tinha maior importância financeira no mercado europeu. Inicialmente a criação de gado era destinado à subsistência e depois se consolidou, principalmente no Piauí e no Sul com a política do charque. As terras do sertão, incluindo o Piauí, segundo Tânia Brandão, foram doadas por meio das cartas de sesmarias a grandes fazendeiros que tinham capital para explorar as riquezas do local e promover o povoamento.
Os primeiros colonizadores do Piauí , segundo Claudete Dias, tornaram-se grandes proprietários de terras. E saiu favorecido com as sesmarias Domingos Afonso Sertão, sendo no entorno de sua Fazenda Cabrobó que se desenvolveu o primeiro núcleo populacional do Piauí onde adquiriu a conotação posteriormente de Vila da Mocha.
Com a colonização empreendida pela pecuária surgiu um aglomerando de pessoas e houve a preocupação de se criar uma Igreja. O Bispo de Pernambuco decidiu então criar uma paróquia e coube aos padres Miguel e Tomé de Carvalho erguer o primeiro tempo oficial do Piauí em 1733 que foi a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, a partir desse feito a colonização no Piauí se deu de forma mais intensa. E devido à influência religiosa o local passou a se chamar Freguesia de Nossa Senhora da Vitória do Sertão do Piauí de Dentro, localizada entre o Riacho Mocha e o Rio Canindé.
Com a evolução do local a freguesia se tornou Vila em 1712 e de acordo com Claudete em 1758 com o desmembramento do Piauí do maranhão criou-se a capitania de São José do Piauí, sendo designada como sede do Governo a Vila da Mocha. No mesmo ano foi nomeado o primeiro governador, João Pereira Caldas que criou os municípios de Parnaguá, Jerumenha, Campo Maior, Marvão, Valença e Parnaíba. Em 1761 a Vila da Mocha é elevada a categoria de cidade com o nome de Oeiras, em homenagem ao Conde de Oeiras, posteriormente Marquês de Pombal.
No período em que Oeiras foi a capital do Piauí ela se destacou como a cidade mais importante da capitania. Inclusive na época do processo de independência do Brasil Oeiras teve um papel essencial. Nessa época estava a Capital do Piauí sob a administração de Fidié que representava Portugal. Este pensava que a população não se rebelaria contra o seu governo. Mas Claudete Dias aponta em Balaios e Bem-te-vis: A Guerrilha Sertaneja que Parnaíba aderiu ao ato do 7 de setembro em 19 de outubro de 1822. E Segundo Júnior Viana, nosso guia em Oeiras, essa adesão em Parnaíba se deu intelectuais encabeçados por João Cândido e Simplício Dias que mantinham contato com as ideias emancipacionistas do Sul.
            Fidié deslocou, segundo Claudete, as forças militares portuguesas sediadas em Oeiras para o litoral para sufocar o movimento. A Vila foi cercada, mas as lideranças já tinham se retirado para o Ceará em busca de auxílio militar. Com a ausência de Fidié formou-se uma Junta Administrativa em Oeiras para responder pelos interesses políticos da capital sobre a liderança de Manuel de Souza Martins que para ascender politicamente promoveu o primeiro ato de adesão a Independência em Oeiras em 13 de dezembro de 1822 com a tomada da Casa da Pólvora.
O primeiro ato de adesão à independência em Oeiras se deu em 13 de dezembro de 1822, mas foi em 24 de janeiro de 1823 que se formalizou a independência. A oficialização se deu quando Manuel de Souza Martins e seus aliados foram a Praça das Vitórias, que fica em frente à Igreja de Nossa Senhora da Vitória, e saudou o governo de D. Pedro I com o grito de viva a independência.
Com o corrido em Oeiras Fidié marchou de volta para a capital enquanto os oeirenses marcharam para Parnaíba. Houve o encontro das duas forças no dia 13 de março de 1823 às margens do riacho Jenipapo em Campo Maior, desembocando segundo Claudete Dias num combate violento com duração de mais de cinco horas onde as tropas portuguesas saíram vitoriosas devido a sua superioridade militar. Posteriormente Fidié foi preso em Caxias e enviado para Portugal.
A independência consolidada representou a garantia da unidade territorial do Brasil e consolidou a liderança de Manuel de Souza Martins no poder de 1823 a 1843. Tamanha é a importância do 24 de Janeiro que todo o ano nessa data o governador do Estado é recebido com honras  na Praça das Vitórias e a sede do governo neste dia é transferido para Oeiras, considerada o núcleo mais antigo do Piauí e berço da história e colonização do Estado e foi sede da Província até 1852, quando o Conselheiro Saraiva transferiu a capital para a Chapada do Corisco, onde hoje se encontra Teresina.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, Tanya Maria Pires. O Escravo na formação Social do Piauí. In: _____. O escravo na formação social do Piauí: perspectiva histórica do século XVIII. Teresina: Editora da Universidade Federal do Piauí, 1999. p. 149-171.

DIAS, Claudete Maria Miranda. Balaios e Bem-te-vis: A Guerrilha Sertaneja. 2ª ed. Teresina: Instituto Dom Barreto, 2002.

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A BUROCRACIA STALINISTA


Marcos dos Anjos Bezerra

“Todas as revoluções são impossíveis até que se tornem inevitáveis”. (Leon Trotsky). Essa assertiva sintetiza a Rússia anterior a 1917, onde predominava o poder dos czares, sendo os camponeses, maioria da população. Esse ponto foi essencial para o levantamento dessa massa que comandada pela minoria proletária derrubaram o czar em 1917 e instalaram o primeiro país socialista na História.
A Rússia no início do século XX era um império com capitalismo atrasado, com um campesinato miserável, compunha-se de uma nobreza estéril e uma monarquia que subjugava o povo. Esses fatores não foram empecilhos para a Revolução Socialista, esta foi para os povos da Rússia o meio de superar a inferioridade econômica e cultural, segundo Trotsky.
Prevalecia na Rússia a discrepância do capital estrangeiro que entrava no país com a questão social. Os grandes acionistas das empresas eram não russos, sendo os operários russos, que eram poucos se comparados aos camponeses. Estes tinham como reserva revolucionária os camponeses que viviam no regime da semi-servidão no campo, representavam cerca de 80% da população e estavam excluídos da distribuição das terras.
Devido a todas essas circunstâncias foi efetivada a aliança entre o campesinato e o proletário, ou seja, houve a combinação de dois fatores históricos diferentes: a guerra camponesa e a insurreição proletária, sendo a ultima a guiadora do processo revolucionário.
Além dos camponeses os proletários contaram com as contribuições de diversas nações oprimidas pelos czares. Na Rússia

[...] a nação dominante não constituía senão 43% da população, enquanto que os outros 57% eram de nacionalidades, culturas e regimes diferentes. A opressão nacional era na Rússia incomparavelmente mais brutal do que nos estados vizinhos e, para dizer a verdade, não somente naqueles que estavam do outro lado da fronteira ocidental como também nos da fronteira oriental. Isto dava ao problema nacional uma força explosiva enorme [...]. (TROTSKY, 1989, p. 18).

Os bolcheviques arregimentaram essas nações ao pregarem a autodeterminação das nações, o direito a separação estatal. Toda essa conjuntura fez com que a Revolução de Outubro se concretizasse, e esta deveria conduzir a uma solução da questão agrária. Representou a vitória do programa socialista dos bolcheviques sobre os mencheviques. Essas denominações surgiram a partir da ruptura de segmentos do Partido Operário Social Democrata Russo em 1903. Onde Bolcheviques eram partidários da luta armada para a tomada e instalação imediata do socialismo e contrária a Rússia na Primeira Guerra. Já os Mencheviques idealizavam primeiro o desenvolvimento do capitalismo para posteriormente o socialismo ser efetivado, sendo a favor da permanência da Rússia na Primeira Guerra Mundial.
Resumindo: as premissas históricas que levaram a Revolução de Outubro foram às ações autoritárias dos czares; a debilidade da burguesia russa; a concentração de terras para poucos; a organização e união dos proletários com os camponeses e com as diversas nacionalidades reprimidas pelo czarismo; o ensaio de 1905; a Rússia encontrar-se nos frontes da Primeira Guerra Mundial sem um exército preparado, ocasionando severas perdas de vidas; além é claro da estruturação eficiente do Partido Bolchevique, que com sua doutrina e lutas se tornaria a direção do estado socialista, uma vez que os anseios do povo com a Revolução de Fevereiro foram deixados de lado.
O surgimento do Estado Proletário significou mudança social, representando a vitória e o povo no poder.  Mas foi preciso a luta armada para a consolidação do poder pelos proletários. Historicamente nunca a classe dirigente abdicou e entregou o poder pacificamente.
A manutenção do socialismo russo se efetivou no período de 1918 a 1921. Período que estrangeiros se uniram à nobreza local visando derrubar a revolução e reinstaurar o czarismo. Mas a união do proletariado com os camponeses, soldados, nacionalidades reprimidas possibilitando os revolucionários venceram os opositores do Estado Proletário. A arregimentação das massas na Guerra Civil deu-se por Leon Trotsky, que formou o exército vermelho em oposição ao Exército Branco.
Com a consolidação do socialismo na Rússia Lênin sobressaiu-se como líder dos proletários, tendo como braço direito Trotsky. Com o novo regime a Rússia apresentou um crescimento do setor industrial, com respaldo principalmente no social.

[...] a curva do desenvolvimento industrial na Rússia expressa-se como se segue: fixemos para o ano de 1913, o último ano antes da guerra, o número 100. O ano de 1920, ápice da guerra civil, é também o ponto mais baixo da indústria: 25 somente, quer dizer, um quarto antes de produção de antes da guerra; em 1929, aproximadamente 200; 1932, 300; ou seja, três vezes mais que nas vésperas da guerra. (TROTSKY, 1989, p.32).

            O crescimento da economia russa em 1929 deu-se em grande parte devido a adoção da Nova Política Econômica e dos Planos Quinquenais. Enquanto a Rússia crescia econômica e socialmente os países do eixo ocidental atravessavam grave crise em virtude da grande crise financeira que eclodiu nos Estados Unidos em 1929 em virtude da superprodução. A crise afetou praticamente todo o mundo, com exceção da União Soviética que se pautava na liberdade, onde não se tinha a dependência das leis de mercado. Essa fase austera da Revolução se deu com Lênin e Trotsky.
            Após a morte de Lênin em 1924 travou-se um embate pelo controle da União Soviética entre Trotsky e Stalin, saindo como “vencedor” o segundo. Trotsky foi perseguido pelas forças do Estado Stalinista e teve que deixar a Rússia e se exilou no México, sendo posteriormente assassinado a mando de Stalin.
            No período em que esteve no México o líder do exército vermelho traçou severas críticas ao governo de Stalin, taxado de ser responsável pelo estrangulamento das organizações operárias e do próprio socialismo. Uma vez que as concepções da Revolução para ambos eram diferentes: Trotsky lutava para levar o socialismo a nível internacional, a única forma de promover o sucesso da Revolução; Stalin argumentava que o sucesso do socialismo dar-se-ia somente a nível nacional.
Dentre as principais críticas ao governo de Stalin feitas por Trotsky  podemos citar: falsa política de direção do país na superação do isolamento, implantação de uma burocracia sobre o proletariado, expropriando-o. E os proletários mesmo percebendo a ditadura sobre as massas não se rebelaram contra tal sistema em razão da preocupação com o nazi-fascismo que estava em expansão em grande parte na Europa. Derrubar o sistema poderia representar a derrocada da revolução como um todo.
Só houve a ditadura do proletário no início da revolução com Lênin, quando houve a implantação do Capitalismo de Estado, isto é, a empresas econômicas passaram para o domínio do estado, sendo a Nova Política Econômica apenas uma forma de restaurar a economia da Rússia que foi abala em virtude da Guerra Civil de 1918 a 1921 e pela Primeira Guerra Mundial.
 Na época de Stalin, segundo Trotsky, o capitalismo foi reacionário, onde a economia, por exemplo, foi sustentada pela cobrança de altos impostos e a política do partido único (Partido Comunista) impôs a proibição da organização dos sovietes. Teve-se, portanto, um governo instável, ditatorial e repressor sobre as massas. Stalin transformou o Capitalismo de Estado pregado por Lênin e Trotsky em empresas que priorizavam os trustes.
Esse monopólio foi característico na época stalinista: a elite que sustentava a ditadura sobre o proletário foi privilegiada, roubando uma parte da renda nacional e por meio da burocracia devorava uma porção da mais-valia. Os salários, por exemplo, passam a ser diferenciados. Podemos afirmar que a burocracia stalinista foi a contrarrevolução, pois distorceu os ideais socialistas.
Para reverter o quadro burocrático stalinista era preciso reestruturar o Partido Bolchevique nos moldes da Nova Internacional Comunista e dá nova voz as bandeiras marxistas. Só assim a capacidade de luta dos proletários ganhará força mundialmente. (Leon Trotsky, 1989).


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

TROTSKY, Leon. A Revolução Russa (Conferência), 1932: a natureza de classe da URSS. Tradução Silvana Faó. Informação Editorial: São Paulo, 1989.


RESENHA DO CAPÍTULO "A BALAIADA NO PIAUÍ" DO LIVRO "BALAIOS E BEM-TE-VIS: A GUERRILHA SERTANEJA" DE CLAUDETE DIAS



DIAS, Claudete Maria Miranda. Resistência e Luta: A Balaiada no Piauí. In:_____. Balaios e Bem-te-vis: A Guerrilha Sertaneja. 2ª ed. Teresina: instituto dom Barreto, 2002. p. 121-194.

Marcos dos Anjos Bezerra

Licenciada em História pela Universidade Federal do Piauí (1973), é Especialista em História do Brasil (1980) e Mestra em História do Brasil pela Universidade Federal Fluminense (1985), Doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. O livro Balaios e Bem-te-vis: A Guerrilha Sertaneja é dividido em cinco capítulos: Em busca dos sertões de dentro; Em busca da liberdade, Resistência e luta: A Balaiada no Piauí; A repressão armada; A historiografia em questão. Aqui será resenhado o terceiro capítulo.
As guerras de independência provocaram grave crise na economia local, pois a pecuária estava decadente e faltavam alimentos ao povo. Sujeito a excessivos impostos o piauiense era uma massa propensa para a eclosão de um movimento como foi a Balaiada.
A Regência formou uma oligarquia repressora das camadas populares. Houve a sistematização do recrutamento, principalmente aos pobres provocando descontentamento. As pessoas recrutadas eram utilizadas em outras províncias nas tropas legalistas.
A Lei dos Prefeitos é outro fator que foi de desencontro aos anseios da população. Esta lei se resume no clientelismo, pois o Barão da Parnaíba nomeava pessoas de sua confiança para os cargos de prefeitos. E isso vai contra prática democrática da escolha dos juízes de paz pelos proprietários de terras. Esse clientelismo do Barão da Parnaíba finca raízes antagônicas da elite local contra o presidente.
A má condição de vida, recrutamento, a Lei dos Prefeitos e a administração do Barão da Parnaíba contribuíram para eclosão Revolução Balaiense. Isso fica claro quando em Vila da Manga (MA) quando o vaqueiro Raimundo Gomes teve seu irmão e outros recrutados e pede para as autoridades os soltarem, não atendido liberta seus companheiros da cadeia. Lança reivindicações como a volta dos juízes de paz, a abolição dos prefeitos e a demissão do presidente da província. Iniciava-se a Balaiada no Maranhão.
O governo buscou desqualificar o movimento atribuindo-lhes conotações pejorativas: desordeiros, assassinos. Ao atribuir essa ideia pensava-se que a população apoiaria as forças do governo. Mas, o povo se aproximava dos balaios que adentram o Piauí em busca de apoio.
No Piauí o movimento se alastrou de norte a sul. A mata de Curimatá e Egito em Campo Maior foi o núcleo de maior penetração dos balaios. O povo passou a resistir às forças do governo, recusando o recrutamento.
A Balaiada no Piauí foi marcada pelo engajamento de humildes e pequenos proprietários. A massa que participou da Revolução Balaiense é identificada como “rebeldes”, “malvados”, “desordeiros”, no entanto, Claudete apresenta esse povo como sendo mestiços, humildes, lavradores, ou seja, os subjugados e excluídos.
No movimento destacam-se as atuações dos proprietários Lívio Lopes Castelo Branco; Mascarenhas; Raimundo Gomes que realizou deslocamentos para o Piauí para conseguir apoio. É de sua autoria a união dos balaios com os escravos liderados pelo escravo Cosme. Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, Balaio, forma um grupo e se alia a Raimundo Gomes. Outro líder foi Mascarenhas que agitou o Sul do Piauí e o documento de sua autoria “O Pacto Social” provocou pânico do governo, pois enfocava um novo governo a ser liderado por ele. Percebe-se um jogo político, onde caberia ao povo lutar, mas não governar, pois o povo era despreparado e caberia a um letrado governar. 
É notória a participação dos escravos na Balaiada. Eles tinham suas próprias formas de resistência, mas isso não impediu que se unissem aos balaios. A pesar formarem grupos antagônicos escravos e sertanejos uniram-se entorno de objetivos comuns.
Muito se discute a organização dos representantes da Balaiada nas Províncias Piauienses e maranhenses. A Historiografia tradicional deu à conotação de não consciência do movimento. Essa visão foi a forma de desvalorizar os reprimidos e deixá-los nos escombros memória. A ideia pejorativa dada a Balaiada foi planejada pela elite política da época.
No entanto, essa visão passa por reinterpretação, sobretudo, nos anos 1980 com os debates levantados pela História Social e Cultural. Foi nessa nova perspectiva que Claudete Dias percebeu a Revolução Balaiense. Ela trouxe para histórica o Movimento na visão das massas com características próprias no Piauí. O Movimento adquiriu novos conceitos e se atrela a busca da qualidade de vida e do fim das arbitrariedades de um governo.
Ao trazer essa discussão sobre a Balaiada Claudete contribuiu de forma significativa para a história. Trouxe o que até então não se discutia: a organização do movimento. Isso fica claro nos objetivos claramente identificados (fim da ditadura do Barão da Parnaíba, do recrutamento e da Lei dos Prefeitos). A mobilização dos balaios além da própria composição do movimento em grupos representa claramente sua organização.
Ressalta-se que o movimento não se deu de forma igualitária nas duas províncias e que o Piauí foi um agente importante para balaios ou legalistas. O Primeiro conflito armado se deu no Piauí (Barra do Longá), as forças legalistas do Piauí foram utilizadas na defesa de terras maranhenses e alguns dos líderes sertanejos que agiram no Maranhão eram piauienses.
Mesmo com sua organização e mobilização os Balaios foram derrotados pelos legalistas. Sua derrota não se atribui ao seu despreparo, mas sim a repressão do governo com aparato militar superior. As forças do Barão da Parnaíba foram reforçadas por tropas de outras províncias. Somou-se a isso o fato de algumas lideranças se retiraram do movimento, enquanto outros morreram em combate (Balaio) ou foram presos (Cosme). A anistia de 1840 promoveu a rendição de muitos combatentes.

Conclui-se que a Balaiada mesmo sendo um movimento de grandes proporções em composição social e conflitos armados a historiografia brasileira não a valoriza. E os políticos piauienses não têm a preocupação de difundir o movimento para a sociedade. A população muitas vezes renega o movimento. Isso não é culpa do povo, mas das diretrizes educacionais que abordam a Balaiada nos livros didáticos de forma bastante resumida e sendo somente do Maranhão. É preciso mudar esse quadro, caso contrário a Revolução Balaiense não será abordada como identidade de nossa gente e movimentação de nossa sociedade.

RESENHA DO CAPÍTULO "A BALAIADA (UM PAINEL REVELADOR)" DO LIVRO "TEMPO DE BALAIO" DE CARLOS MONTEIRO



MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo. A BALAIADA (Um Painel Revelador). In: _____. Tempo de Balaio. Florianópolis: UFSC/CFH/GCN, 2008. p. 179-284.

Marcos dos Anjos Bezerra

            Nascido em 1927, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, natural de Teresina, é geógrafo licenciado em geografia e história na antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, com complementação na Universidade de Paris (Sorbonne). Em 1955 iniciou, em Florianópolis, sua carreira no magistério superior como responsável pela cadeira de Geografia Física na antiga Faculdade Catarinense de Filosofia. Atuou até 1959, sendo convidado a ser coordenador da elaboração do Atlas Geográfico de Santa Catarina, publicado em 1958, obra pioneira no Brasil.
 Tempo de Balaio é composta de quatro capítulos: Os Fundamentos Estruturais (características da exploração da terra e seu advento político); A Dinâmica Processual (as etapas na evolução da sociedade); A Balaiada (Um Painel Revelador); Tempo de Mudanças (O Meio do Século e Perspectivas Futuras). Será resenhado o terceiro capítulo.
        Debate-se o período regencial como um mosaico de insatisfações de grupos diferentes. Os movimentos que ocorrem nessa época apresentam variações de uma região para outra. Isso fica claro contrapondo-se os movimentos do eixo norte-nordeste com os do sul.
Um dos movimentos que se destacou pelo envolvimento de populares foi a Balaiada que eclodiu em 1838 no Maranhão (Vila da Manga) e que adentra rapidamente o Piauí. Para Compreender as particularidades do Piauí se torna necessário considerar as afinidades e diferenças do movimento no Maranhão.
Para Monteiro o recrutamento, atrelado a Lei dos Prefeitos, regime autoritário do Barão constitui-se os pontos clássicos para a eclosão da Balaiada no Piauí. Contudo, pode-se apontar um quarto ponto e talvez o principal para o descontentamento do povo: o fato da formação da sociedade piauiense ter excluído os populares, o Piauí estava em crise econômica, o povo passava fome e pagava muitos impostos, este grupo constituía uma massa propensa para um movimento de grandes proporções que foi a Balaiada.
Raimundo Gomes tendo seu irmão e companheiros recrutados invade a cadeia de Vila da Manga-MA e consegue soltar os prisioneiros. Tal ato é tido como heroico. É possível um questionamento a tal feito: o recrutamento iniciou-se bem antes da Regência, porque Raimundo Gomes questionou o recrutamento somente quando pessoas próximas a si são recrutadas? Será porque ele viu os ofícios de sua profissão prejudicados?
Esses questionamentos são utilizados para justificar a participação dos pequenos proprietários na Balaiada. Este grupo participou para questionar a Lei dos Prefeitos. Isso fica claro em Parnaíba, onde segundo o autor os líderes eram contrários à aliança com os escravos.
Monteiro aponta que a Balaiada ganhou força rapidamente no Maranhão e Piauí e que em torno de Raimundo Gomes surgiram lideranças populares, tais como Balaio e Cosme que formaram imensos grupos de pessoas. Cosme conseguiu aglutinar milhares de quilombolas.
A participação de escravos nas duas províncias se deu de forma diferente: no Piauí a sua participação seu de forma complementar. Odilon Nunes apontou o escravo como mão de obra e não como braço militar. No Maranhão a participação do negro foi intensa. Essa maior participação se reflete na própria atuação do Preto Cosme.
Dois piauienses tiveram atuação importante para colocar Caxias nas mãos dos Balaios: Lívio Lopes Castello Branco e Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, Balaio. Os rebeldes constituíram um Conselho Militar, enquanto que os proprietários formaram o Corpo administrativo.  Percebe-se a com essa afirmação que cabia ao povo somente guerrear e aos que detinham a intelectualidade usufruir o poder. Essa marca esteve presente em quase todos os movimentos, a exceção foi a Cabanagem, onde o povo derruba a elite e assume o poder.
A Balaiada do Piauí difere em outro ponto da do Maranhão: a Piauiense foi rural e não conseguiu tomar nenhuma cidade, enquanto a maranhense se desenrolou além do setor rural no urbano e conquistou Caxias. Analisando desse ponto pode-se cogitar que a Balaiada no Piauí foi reflexo da do Maranhão. Mas percebendo a composição social, os conflitos armados e a extensão dos acontecimentos, o Piauí adquiriu características próprias.
Uma afirmação interessante que o autor traz e passível de crítica é que uma rebelião popular com grandes números de rebeldes existe uma falta de organização, razão do fracasso da Balaiada. A desorganização dos movimentos é trabalhada pela historiografia tradicional. A história, a partir de 1980 adquiriu uma nova feição. Claudete Dias aponta que a derrota dos Balaios está atrelada a superioridade dos armamentos das tropas regenciais.
Segundo Carlos Monteiro nos discursos da elite na Balaiada havia dois grupos: bandidos e chefes insurgidos. Entende-se que os bandidos eram os pobres oprimidos pelo regime do Barão da Parnaíba e os Insurgentes eram os proprietários que participavam do movimento na busca de participação política. Seriam bandidos os mestiços, os negros, os vaqueiros; e insurgidos a família Castello Branco, os Aguiar, etc.
O autor da muita ênfase aos líderes das tropas do governo, tais como Clementino, Antonio Mendes, Miranda Osório, Cid e seus feitos. Seu texto é muito detalhista e até repetitivo. Não cria um percurso próprio. Sua escrita pode ser comparada com as de Odilon Nunes, uma descrição dos fatos de forma cronológica.
Tem-se a constatação do grande número de mulheres e crianças entre os capturados e uma pequena quantidade de escravos na participação do movimento no Piaui. “[...] as forças de Piracuruca, como resultado de sua operação de atalhe na fuga, consignam 156 baixas no inimigo, dos quais 6 mortos e dos 150 prisioneiros, 43 mulheres, 56 crianças e 2 escravos[...]” (MONTEIRO, 2008, p.228). Esses dados vão de encontro à abordagem de Odilon Nunes de que o negro na Balaiada piauiense foi complementar, bem como se adequada as de Claudete Dias de que os Balaios quando fugiam para o interior das matas com suas famílias.
A partir da Balaiada se percebe o descaso do poder central para com o Piauí. A Província sem finanças e sem o apoio do poder regencial repreendia os balaios no maranhão. Com Luís Alves de Lima verbas foram deslocadas para o Maranhão, enquanto que o Piauí ficava à margem mesmo com as pressões do Barão da Parnaíba.

Conclui-se que houve uma guerra de extermínio dos balaios, onde a repressão se deu com maior intensidade em Curimatá e Egito. Os Balaios foram sufocados devido o aparato militar superior das tropas legalistas, saída de alguns líderes do movimento (Lívio Castello Branco, Mascarenhas), Morte de Balaio, prisão de Cosme, Anistia de 1840. Com o fim da Balaiada o Barão se torna Visconde da Parnaíba. Teve época de glória e sofre uma rápida derrota: surgiram críticas às fraudes eleitorais, a crise econômica pós-Balaiada, o nepotismo, autoritarismo. Os políticos da época exercem pressões sobre o Visconde. Por fim, em 30 de dezembro de 1843 finda o longo governo de vinte e três anos do então Visconde.